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A Força Transformadora da Educação

Devo confessar que, quando recebi o convite do Professor João Tavares Calixto Junior para ocupar a cadeira 39 da Academia Aurorense de Letras e Artes, cujo patrono é o ilustre Januário Alves Feitosa, não me contive: compartilhei com os meus familiares e amigos essa grata homenagem e o privilégio de ter sido reconhecido pelo povo de minha cidade natal, como merecedor de tão laureado prêmio. Agradeço, aqui, de todo o meu coração, a todas as manifestações de júbilo.


Ao receber o convite veio imediatamente à mente a lembrança da minha infância lá no Tipi, onde, naquela época, imperavam o analfabetismo, a ignorância e as casas de taipa. O grande desafio era sair daquele ciclo da ignorância e da pobreza. Como é que nós podíamos quebrar esse ciclo da ignorância, que se vem repetindo, repetindo-se, de geração a geração, com os filhos vivendo a mesma vida de seus pais, pobreza gerando pobreza, ignorância gerando ignorância? Coube-me o privilégio de haver saído de uma casa de taipa para o limiar do saber, através da força transformadora da educação.


Eu fui alfabetizado pelos meus pais e pela minha irmã Nen, apelido caseiro de Francisca Ferreira de Sousa. Minha primeira professora fora do círculo familiar foi a renomada e brava mestra Maria Nadir Gonçalves de Macedo, na época uma menina. Ressalto que, por isso, nós a tratávamos como dona Nadir.


Pensei mais ainda, ao receber o convite, que minha trajetória da casa de taipa ao limiar do saber começa com a coragem e lucidez do meu pai que, percebendo a força transformadora da educação, ao invés do cabo de enxada, entregou-me aos cuidados dos Padres Salesianos. Apesar de ajudar meu pai nos rudes trabalhos do dia a dia, na roça, ele sempre dizia que “Lugar de menino é na escola, não na roça!” Era a sabedoria intuitiva e maior de meu pai. Graças a ela, escapei de uma vida condenada ao trabalho na roça, para trilhar os caminhos do saber, frequentar escola, ser o que sou. Foi o seu legado, muito mais do que se nos tivesse deixado, a nós, seus filhos, propriedades e riquezas como herança. Um legado de sabedoria foi o que nos deixou.


Lembrei-me também do meu grande benfeitor Padre Francisco de Luna Tavares, ou simplesmente padre Luna, que considero até hoje como um dos maiores benfeitores da educação e da propagação da palavra do Senhor no município de Aurora (CE). O padre Luna era o nosso vigário, em 1959, quando fez ao meu pai o convite para me enviar à casa paroquial, em Aurora, a fim de aprender a “ajudar a missa”, naquele tempo, celebrada em latim. Devo, por isso, muito ao padre Luna todo o início de minha carreira estudantil e profissional!


Com justo reconhecimento, é homenageado pela Academia Aurorense de Letras e Artes como Patrono da Cadeira número 11, cujo acadêmico é o também ilustre padre Sóstenes Tavares de Luna, seu parente.


Creio poder exemplificar a força transformadora da educação através da ficção. Sei que rompi o ciclo, e devo muito a meu pai, entretanto não captara ainda completamente a consciência de como conseguira fazê-lo, preocupado que estive sempre em viver cada momento, em “tocar a vida”, como se diz, colhendo aqui e ali os frutos de meu trabalho. Até que, um dia, assisti a um filme de curta-metragem, “Vida Maria”, lançado no ano de 2006, produzido pelo animador gráfico Márcio Ramos, patrocinado pelo governo do Estado do Ceará.


Ali estava retratada a realidade a que sobrevivi. Maria José, menina de cinco anos, diverte-se aprendendo a escrever o próprio nome. Obrigada pela mãe, abandona os estudos e passa a cuidar da casa e a trabalhar na roça. Cresce, casa-se, gera filhos e o mesmo ciclo reproduz-se nas outras Marias, suas filhas, netas e bisnetas. Todas as Marias reproduzem o mesmo ciclo de vida, a mesma miséria, a estagnação.


Somos netos de nossos avós. Somos filhos de nossos pais. Não podemos, no entanto, repetir-lhes a vida, os mesmos estratos sociais e psíquicos, sem a perspectiva de mudar essa realidade. Como romper esse muro, como dar o salto para outra vida, para um novo caminho? A resposta – e essa é a minha crença fundamental – está na educação.


Só é possível tentar construir um futuro melhor e buscar qualidade de vida se não nos acomodarmos. Só é possível não nos acomodarmos, caso se nos imponha refletir sobre as condições da vida em que estamos vivendo. Para tomarmos consciência da realidade e provocar e forçar uma mudança de atitude, cumpre-nos estabelecer como base o conhecimento, que só a educação pode proporcionar. Isto define o grande desafio do Brasil: como alterar os valores que se cultivam bem numa vida dura e pobre? A resposta está, não há duvidar, com absoluta certeza, na educação.


Mas educar com o quê? Apenas ensinando a ler, a fazer contas e um pouco mais, com uma pitada de Química, de Física, de História e Geografia? Será isso o necessário e fundamental para a alteração cultural da vida de nossos milhões de Marias? Não, isso, na verdade, passa ao longe.


É óbvio e parece ser consenso para todos que é necessária uma educação diferenciada em escolas que formem cidadãos que desenvolvam discernimento crítico. Fazem-se urgentes núcleos de discussões e estudos sobre o próprio meio de vida, onde famílias possam compreender-se melhor e sejam orientadas ao planejamento familiar, ao direito das crianças e dos adolescentes e também sobre a situação econômica do país, para romper o comodismo pela relação causa-efeito, objetivando mudança de perspectivas de vida para que se possa sanar essa reprodução de valores ultrapassados.


O filme é excelente para conscientizar os jovens de que eles não precisam repetir a história de seus antepassados; precisam, de outra forma, renovar suas vidas. Remete-nos a pensar o que fazemos ou podemos fazer a fim de contribuir para a quebra de ciclos de "Marias" que se perpetuam pelo Brasil afora. O país precisa de oportunidades e não de caridades.


Do Sítio Tipi, e de nossa saudosa casa de taipa, já se foram 73 anos, até me ver como membro da Academia Aurorense de Letras e Artes. O tempo voa e traz em suas asas o reconhecimento do passado. Diariamente me pergunto: o quanto devo fazer para retribuir a Deus e a tantas pessoas maravilhosas o que deles recebi, durante tanto tempo? Acredito que a melhor maneira de retribuir seja tentar viver um pouco todos os dias os ensinamentos do mestre Senhor Jesus Cristo – amor e fraternidade –, sendo um instrumento por meio do qual as pessoas possam crescer, desenvolver-se e ser mais felizes em suas vidas. Meu compromisso é, de fato, evoluir primeiro, no intuito de ajudar as pessoas a evoluírem e serem felizes. Busco servir à alma humana, servir de exemplo para minha família, conectar as pessoas para que se conheçam e conectem-se com outras pessoas numa corrente de crescimento e desenvolvimento. Busco também prosperar, caminhar com determinação, com equilíbrio entre vida pessoal, familiar e profissional. Intento, ainda, viver o momento presente cada instante de minha vida, honrando e respeitando meu passado e mantendo a certeza de que um futuro lindo está por vir, sempre, porém, vivendo no aqui e agora, já que este é o único momento real, o presente (e que presente!).


Orgulha-me constatar quantos filhos ilustres de Aurora hão-se destacado nos mais diversos ramos de atividades, seja na área técnico-científica, na academia, no setor bancário, dentre tantos outros de igual importância, impulsionados pela força transformadora da educação. Além disso, instilou-se nas famílias aurorenses a crença de que a esperança de um futuro melhor para seus filhos e netos reside nas oportunidades educacionais, ajudando a despertar no próprio Estado do Ceará a certeza de que, só através da educação, o Estado pode competir nacionalmente, em pé de igualdade, com os demais Estados da federação.

Sinto-me orgulhoso e feliz de fazer parte desse seleto grupo de ilustres aurorenses, e por meio das atividades literárias e artísticas a que nos dedicamos, promover e incentivar a cultura e a aproximação da classe estudantil através da realização de cursos e artigos, como este, por exemplo, propagar o culto, o estudo, a exaltação e a divulgação da vida e da obra de personagens históricos e figuras literárias e artísticas que ajudaram a construir a grandeza do município de Aurora, instilando a força transformadora da educação.


Afonso Cesário de Sousa

Professor, escritor e consultor empresarial. Natural do Distrito Tipi, município de Aurora - CE. Administrador de Empresas com pós-graduação (CEAG) em recursos humanos pela Fundação Getúlio Vargas – São Paulo. Como profissional, exerceu diversos cargos no Banco Itaú S/A, especialmente na área de Educação e Desenvolvimento de Pessoas. Como consultor, treinador e coach, especializou-se em Desenvolvimento Gerencial, Feedback, Team Building, Atendimento Consultivo e Liderança Coaching. Ministra cursos sobre Liderança, gestão de pessoas, gestão de equipes e Coaching, dentre outras áreas de comportamento, em várias empresas nacionais e multinacionais. É formado em Coach Professional & Self Coaching pelo IBC – Instituto Brasileiro de Coaching e credenciado ao ICC – International Coaching Council. Autor do livro ‘Da casa de taipa ao limiar do saber - A força transformadora da educação, e Coautor dos livros Gerente Total – Como Administrar com Eficácia no Século XXI - Editora Gente, e do livro Estação D’Aurora: uma saudade que não passa. É membro fundador da Academia Aurorense de Letras e Artes, ocupando a Cadeira 39, cujo patrono é o ilustre, in memoriam, Januário Alves Feitosa. Casado com Julia Jurani Cesário de Sousa, aurorense. Dessa união nasceram dois filhos Tiago Henrique e Felipe Augusto Cesário de Sousa, casados com Márcia Cristina e Tatiana Biasotto respectivamente, e avô de seis maravilhosos netos: Mainá, Francisco, Clarice, Lúcia. Bento e Antônio. Reside em Santo André - São Paulo. Contato - @afonso.csouza WhatsApp Business – (11) 991023612.

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