Bem-estar deve ser um pilar estratégico das instituições de ensino
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O cuidado com as pessoas fortalece a permanência dos estudantes, o engajamento dos professores, a qualidade das relações e a sustentabilidade institucional
A saúde mental de alunos e professores é um elemento fundamental para a aprendizagem e para que os estudantes alcancem todo o seu potencial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito se refere a um estado de bem-estar que permite às pessoas lidar com os estresses do dia a dia, desenvolver habilidades, aprender, trabalhar e contribuir para a comunidade.
“A aprendizagem não tem como acontecer com um indivíduo que se sente inseguro e que não interage de forma ativa e contributiva para o ambiente ao seu redor. No caso do aluno, esse ambiente é a sala de aula e, no caso do professor, é o espaço educacional”, diz Daniela Degani, fundadora da Mindful School by MindKids, que oferece soluções em mindfulness para escolas.
Wellness centers
Nesse contexto, ganham destaque os wellness centers, uma infraestrutura institucional permanente, pensada para sustentar a saúde emocional, o pertencimento e o desenvolvimento humano de toda a comunidade escolar -- estudantes, professores, gestores e colaboradores.
Luciane Soutello, fundadora da Blissence Education, coordenadora do wellness center e diretora de inovação da MUST University, explica que, na prática, esses centros funcionam como um hub integrado de cuidado, educação e cultura. “É um sistema vivo, com governança, continuidade e intencionalidade, que acompanha a jornada das pessoas ao longo do tempo.”
Os welness centers reúnem alguns pilares essenciais como: porta de entrada única, que orienta e acolhe quem precisa de apoio; ações preventivas e educativas, como oficinas, grupos e trilhas socioemocionais; apoio psicossocial estruturado, com escuta qualificada e rede de encaminhamento; iniciativas de inclusão e acessibilidade, considerando diferentes perfis e necessidades; e um trabalho contínuo de cultura e comunicação, que normaliza o cuidado e reduz o estigma. “O bem-estar precisa fazer parte da experiência educacional. E isso muda profundamente a forma como as pessoas aprendem, trabalham e se relacionam dentro da instituição”, afirma.
Estratégia institucional
Luciane observa que, durante muito tempo, o bem-estar foi tratado como “algo extra” -- uma palestra eventual, uma campanha pontual ou um benefício isolado. Os welness centers rompem com essa lógica, transformando o cuidado com as pessoas em estratégia institucional, e não em algo periférico ou emergencial. “Quando uma instituição cria um centro como esse, ela está dizendo, de forma prática e visível, que a saúde emocional é parte da qualidade educacional. Não se trata apenas de evitar adoecimento, mas de criar condições para que as pessoas consigam florescer, aprender, ensinar, liderar e trabalhar de forma sustentável ao longo do tempo.”
Ela acrescenta que esses centros também ajudam a organizar o que antes era fragmentado. Em muitas instituições, existem iniciativas espalhadas nas áreas pedagógica, de recursos humanos, de psicologia e de assistência estudantil, mas sem integração. O centro funciona como um eixo estruturante, que conecta ações, define prioridades, cria linguagem comum e dá coerência ao cuidado.
Outro ponto central, de acordo com ela, é que estamos vivendo um momento de aceleração intensa da educação, impulsionada por novas tecnologias, inteligência artificial e novas formas de aprendizagem. “Esse movimento aumenta a eficiência, mas também eleva os níveis de pressão, ansiedade e sobrecarga. Os centros surgem como uma resposta madura a esse cenário, equilibrando inovação com humanidade.”
Ela enfatiza, ainda, que os wellness centers não podem ser reduzidos à ideia de saúde mental clínica. Eles precisam trabalhar o bem-estar de forma integral e sistêmica, considerando as dimensões emocionais, sociais, físicas, cognitivas e até digitais da experiência educacional.
Contribuições para a saúde emocional nas escolas
Os welness centers ajudam a construir um ambiente que previne, acolhe e desenvolve competências emocionais ao longo do tempo. Luciane cita alguns benefícios para as instituições de ensino:
1. redução de barreiras e estigmas: quando existe um centro estruturado, com linguagem acessível e presença institucional clara, buscar apoio deixa de ser sinal de fragilidade e passa a ser parte legítima da experiência educacional. “Isso aumenta significativamente a chance de estudantes e colaboradores procurarem ajuda no momento certo, antes que o sofrimento se intensifique”.
2. prevenção e educação emocional: oficinas, grupos e trilhas formativas ensinam habilidades fundamentais para a vida acadêmica e profissional, como autorregulação emocional, gestão do estresse, foco, relações saudáveis, comunicação empática e autocuidado.
3. mudança do foco do indivíduo para o sistema: a instituição passa a olhar para fatores estruturais que impactam o bem-estar, como carga acadêmica, modelos de avaliação, comunicação interna, relações hierárquicas e segurança psicológica. “Isso é fundamental, porque não adianta falar de resiliência se o ambiente continua adoecedor.”
A especialista destaca que, quando o cuidado é estruturado, os efeitos aparecem no cotidiano, nas relações e nos resultados. Para os estudantes, o principal benefício é o pertencimento. “Eles passam a perceber que a instituição se importa com a sua experiência como um todo, não apenas com o desempenho acadêmico”, exemplifica. Para os professores e tutores, o centro funciona como uma rede de apoio, o que reduz a sobrecarga emocional e aumenta a segurança pedagógica. Para gestores e equipes administrativas, os benefícios aparecem na forma de menos conflitos, mais colaboração e maior engajamento. “Um ambiente com segurança psicológica favorece decisões melhores, comunicação mais clara e maior alinhamento institucional.”
Daniela conta que há escolas que implementaram soluções de mindfulness e conseguiram reduzir os conflitos em 70%. “Outro dado interessante é que 90% dos alunos que experimentaram essas práticas relataram gostar dessas pausas restaurativas para trazer a atenção de volta e autorregular as emoções. E 95% desses estudantes disseram sentir os benefícios dessas pausas. As famílias pesquisadas também aprovaram: 72% delas perceberam diferença nas atitudes dos filhos quando eles têm uma prática como o mindfulness.”
Além dos benefícios para estudantes e famílias, há dados comparativos de bem-estar dos professores. “Antes de fazer essas práticas e depois, temos uma redução de 36% na percepção de desgaste ao fim do dia”, completa a fundadora da MindKids.
O papel estratégico da liderança
Na implementação dos wellness centers, o papel da liderança é central, uma vez que ele nasce da decisão da gestão. Assim, cabe à gestão reconhecer que o bem-estar é um ativo estratégico da instituição. “Quando reitores, diretores e mantenedores assumem essa visão, o centro passa a ter legitimidade, orçamento, prioridade e continuidade. É isso que garante que ele sobreviva a mudanças de gestão e não seja interrompido a cada novo ciclo”, considera Luciane.
A liderança também é responsável por dar governança ao cuidado. Isso significa definir claramente o propósito do centro, seu escopo de atuação, como ele se articula com as diferentes áreas e quais são seus indicadores de acompanhamento.
Outra função-chave da gestão é formar lideranças intermediárias. Coordenadores, gestores de curso, chefias e professores influenciam diretamente a experiência emocional do cotidiano acadêmico. “Quando esses líderes são capacitados para conduzir conversas de bem-estar, reconhecer sinais de sofrimento e fazer os encaminhamentos de forma adequada, o cuidado passa a ser distribuído pela organização.”
“A liderança tem um papel simbólico muito poderoso, o de autorizar o cuidado. Quando gestores falam abertamente sobre saúde emocional, legitimam pausas, estimulam o diálogo e dão exemplos, eles sinalizam que o bem-estar é parte da excelência institucional. E essa mensagem, ao vir do topo, transforma a cultura”, ressalta a fundadora da Blissence Education.
Desafios
A cultura escolar é, justamente, um dos grandes desafios para a implementação de práticas de bem-estar nas instituições de ensino. Segundo Daniela, outro entrave diz respeito à formação dos professores, pois, muitas vezes, essas práticas não foram aprendidas nos cursos de licenciatura e nas faculdades de pedagogia. “Outros pontos são ter evidências científicas dos benefícios desses momentos de pausa, para que eles possam acontecer, e disposição de recursos, como tempo e espaço na grade curricular”, salienta.
Para Luciane, outro desafio é romper com a lógica do pontual. “Muitas instituições ainda associam bem-estar a ações isoladas, como uma palestra, uma semana temática ou um convênio externo. Embora bem-intencionadas, essas iniciativas têm impacto limitado quando não fazem parte de uma estratégia contínua.” Ela também menciona a ausência de governança clara. “Sem um responsável definido, sem escopo, orçamento e indicadores, o cuidado fica diluído e depende do entusiasmo de algumas pessoas.”
Por fim, ela lembra da questão da privacidade e proteção de dados. “É fundamental trabalhar com informações agregadas, protocolos éticos e respeito absoluto à confidencialidade. Isso exige maturidade institucional e processos bem definidos, mas é perfeitamente viável quando há intenção e método.”
Ela diz que, quando o cuidado é pensado como sistema, ele passa a fazer parte da identidade da instituição. “Os centros não apenas apoiam pessoas, eles transformam a forma como a instituição conversa, escuta, decide e se relaciona. E essa transformação cultural é, talvez, o maior legado que um centro de bem-estar pode deixar para uma comunidade educacional”, finaliza.
Daniela Degani, fundadora da Mindful School by MindKids, e Luciane Soutello, fundadora da Blissence Education, vão participar do painel “Wellness centers: o futuro da gestão de saúde emocional nas instituições de ensino”, no GEduc 2026.
Confira as mensagens das especialistas aos educadores e gestores escolares:
“Sem calma e atenção, a aprendizagem não acontece. E sem estratégias validadas e comprovadas para que a gente cultive o fortalecimento da atenção e a autorregulação emocional, vai ser muito difícil que uma mudança de comportamento ocorra de fato. Por isso, nós precisamos de programas de saúde mental nas escolas que tragam evidências de seus benefícios”. (Daniela Degani)
“Não existe inovação educacional sustentável sem sustentabilidade humana. Podemos investir nas melhores tecnologias, nos currículos mais modernos e nos modelos pedagógicos mais avançados, mas se as pessoas estiverem exaustas, ansiosas ou desconectadas, nada disso se sustenta no longo prazo. Criar um wellness center não é sobre cuidar mais, é sobre cuidar melhor e com método. É reconhecer que o bem-estar precisa de estrutura, governança e intencionalidade, assim como qualquer outro pilar estratégico da educação. Instituições que investem em segurança psicológica, pertencimento e desenvolvimento emocional constroem ambientes onde as pessoas aprendem melhor, ensinam melhor e lideram melhor.” (Luciane Soutello)
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